Uma “profissão Kung-Fu” – Parte 1 (Produção Artística)

A vivência no meu trabalho é um tema que queria explorar em algum dos meus Registros de Vida Kung-Fu. 

Conforme venho praticando Ving Tsun, venho me surpreendendo a cada dia com muitas semelhanças de meus sentimentos e atitudes nos dois ambientes. Há sem dúvida uma grande identificação entre ambos.

Já tive empregos de meio-expediente e de dia inteiro. Dentro de ambiente corporativo e fora dele. Já tinha sido freelancer antes, mas nada me ensina tanto, a cada ano que passa, quanto a Produção Artística e de Eventos: uma carreira que exige muita resiliência, flexibilidade e disposição para fazer ajustes a todo instante. Um trabalho onde é essencial saber o que é apropriado, não importando qual seja a formação da pessoa. Não há tempo para julgar.

Esse é um registro – um pouco mais longo – que fala de vivência Kung-Fu fora do Mo Gun (ambiente de prática).

Ouvi em várias ocasiões, tanto do meu Si Fu quanto do meu Si Gung, que Kung-Fu não é sobre fazer o que é certo, mas sim o que é apropriado para cada situação e, quantas vezes senti um tipo de endosso quanto ao que, em muitas vezes, fiz no meu serviço para ter o melhor resultado.

A seguir alguns casos dos meus aprendizados que quero dividir com todos. A idéia aqui é que eu mostre minhas experiências do que vivi sob a perspectiva Kung-Fu:

– Uma vez fui gerente de turnê local de uma cantora em 2009. Ela ia cantar em um evento muito fino. Daqueles raros, cujo custo por ingresso era de R$ 1.500,00 por pessoa. Tudo foi muito bem até que chegou o momento de sua partida de volta para Paris, cidade onde reside.

Nos 7 dias anteriores nos quais convivi com ela, na Pérgula do hotel Copacabana Palace, notei que ela não era, digamos assim, muito ágil na resposta quando solicitada. Demorava bastante para tudo.

Chegou o momento de planejar o lobby call (a chamada para sair do hotel) em direção ao Galeão.

O vôo sairia às 17h10. Normalmente temos que estar duas horas antes lá  para vôo internacional, mas não tive dúvida quanto ao horário a marcar para a saída dessa artista: 11 da manhã.

Eis que depois de 8 chamadas ela só desce às 14h. Ou seja, três horas atrasada, mas em hora apertada para o seu embarque devido ao engarrafamento certo na Lagoa.

Era verdade o horário estipulado? Não. Mas se marcássemos 14h, quem sabe a hora em que ela desceria? Chegou atrasada, mas embarcou com a minha certeza de tê-la no avião em hora emergencial. Imploramos aos supervisores de embarque e o avião foi literalmente mantido em solo por causa dela. Do contrário seria uma dor de cabeça intensa da qual não nos livraríamos tão cedo.

– Uma outra situação interessante foi com a chegada de uma banda de rock bem antiga no Salão Nobre do Galeão, que fica entre os Terminais 1 e 2 (que fica menos acessível aos carros comuns).

Estava tudo pronto. 

Nesse tipo de chegada se monta um comboio com carros do tipo SUV preto com vidros escuros mais escolta policial. 

Muito bem.

Os cinco integrantes da banda chegaram, fizeram a imigração e todos os procedimentos necessários.

Os carros eram seis: um para cada músico e mais um para a segurança.

No carro do cantor iria sua namorada e mais o empresário da banda. Tanto eu quanto a equipe de segurança local estávamos atentos quanto a quem entraria em que carro e a hora do comboio sair.

Todos saíram e entraram nas respectivas SUVs e saíram rapidamente para o hotel.

Eu respirava aliviada quando senti uma aproximação: era o empresário. Ele deveria ter seguido com o vocalista, que simplesmente arrancou com o carro deixando-o para trás. “E agora?” – eu me perguntava.

A questão dele era a mesma. Ele veio e perguntou

– Cadê o meu carro?

Acho que ali pensei mesmo no que era apropriado para tirá-lo dali da maneira mais digna possível. O fornecedor não tinha mais como me atender e não era hora de pensar na “verdade”. 

Não tive dúvida. Chamei um Uber Black e fosse o que Deus quisesse.

Tinha tudo para dar errado, mas em 4 minutos apareceu uma Kia Carnival com motorista bilíngue e o levou ao Fasano. Nem acreditei.

Ouvi um belo agradecimento pela rapidez do serviço e tudo acabou bem. O erro não foi nosso, mas isso simplesmente não importa nessas horas.

Como é interessante ver a importância do ajuste e do que é apropriado para cada situação. Bom saber que isso tem valor.

Meu trabalho e minha família Kung-Fu (Si Hing Fernando Xavier e André Guerra) juntos em visita técnica para o nosso evento.

Uma vez, lá no começo de minhas práticas no Núcleo Barra, o Si Hing André Guerra, falando comigo sobre Filosofia, me falou sobre o fato de que os chineses têm uma relação diferente com a verdade do que tinham os gregos e a própria cultura ocidental de maneira geral.

Fiquei pensando sobre o assunto.

Acho que penso todos os dias sobre o valor de fazer o apropriado para cada situação dentro e fora do Mo Gun.

Sigo com muito foco nas práticas do Siu Nim Tau, domínio ao qual tenho acesso, aguardo a cada momento uma oportunidade de conscientemente fazer esse apropriado.

Pela discípula de Mestre Sênior Júlio Camacho, Carmen Maris “Moy Kat Ming”.

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